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HISTÓRIA DA CIÊNCIA: OS ARABES

 


O "ELO PERDIDO" DA CIÊNCIA

   Sabe aquela ideia batida de que a Idade Média foi apenas uma "Idade das Trevas", com um milênio de estagnação total? Pode esquecer. Enquanto a Europa Ocidental estava focada quase que exclusivamente na teologia para explicar o mundo, o mundo árabe vivia o seu próprio "boom" tecnológico, científico e cultural.

Entre os séculos VIII(8) e XIII(13), o Império Islâmico se transformou no maior polo de sabedoria do planeta. Através dos chamados "Pilares da Sabedoria", esses pensadores não apenas salvaram as grandes obras da Grécia Antiga da destruição e do esquecimento, como também expandiram esse conhecimento de uma forma absurda. Eles foram os verdadeiros guardiões de um saber que, sem o mundo árabe, teria se perdido para sempre na história.


BAGDÁ E A "CASA DA SABEDORIA": O VALE DO SILÍCIO DO SÉCULO IX(9)

   Imagine um centro de inovação ultra avançado onde as mentes mais brilhantes do planeta se reuniam para traduzir textos antigos, debater ideias e criar novas tecnologias. Esse lugar existiu e se chamava Casa da Sabedoria (Bayt al-Hikma). Fundada em Bagdá por volta do ano 820 pelo califa al-Mamun, essa instituição funcionava como uma mistura de biblioteca universal, universidade de elite e laboratório de ponta.

As funções dessa espécie de "Big Tech" medieval eram bem claras. Primeiro, havia um esforço gigantesco de tradução para preservar sistematicamente as obras gregas fundamentais. Além disso, eles investiam pesado em pesquisa prática, estabelecendo o primeiro observatório astronômico do mundo a funcionar com regras científicas rígidas. Foi lá também que eles aperfeiçoaram o astrolábio — um gadget analógico de altíssima precisão usado para mapear as estrelas — e revolucionaram a saúde com novos estudos sobre cirurgias, dietas e farmacologia.


AL-KHWARIZMI: O PAI DO ALGORITMO E DA ÁLGEBRA

   Se você consegue abrir o TikTok, rodar um jogo ou usar o GPS do celular hoje, você deve um grande "obrigado" a este homem. Al-Khwarizmi foi o matemático genial que pegou o sistema numérico hindu (os números de 0 a 9 que usamos hoje) e o espalhou pelo mundo árabe e, mais tarde, para o Ocidente. Ele transformou a matemática na nossa única linguagem global.

Ele odiava ficar só na teoria: queria resolver problemas reais do dia a dia, como divisões de heranças, comércio e grandes construções de engenharia. Para isso, ele desenvolveu dois processos matemáticos revolucionários: o Al-jabr (que significa restauração e consistia em eliminar números negativos) e o Al-muqabala (o balanceamento para simplificar os termos positivos). Ele também reformulou a geografia da época, corrigindo mapas antigos do Mar Mediterrâneo, da Ásia e da África.


Curiosidade: A palavra "Álgebra" vem direto do título do livro dele (al-jabr). E sabe os termos "Algarismo" e "Algoritmo"? São apenas variações do próprio nome dele traduzido para o latim: Algoritmi.

 

IBN SINA (AVICENA): O MESTRE DOS MÉDICOS

    Ibn Sina foi o que hoje chamaríamos de um "jovem prodígio absoluto". Com apenas 10 anos de idade, ele já havia memorizado o Corão inteiro; aos 16, já atuava como um médico respeitado e requisitado. Ele foi um polímata completo: escreveu a primeira grande enciclopédia da história e transitou com facilidade entre a astronomia, a filosofia e a poesia.

Sua grande obra-prima, o Cânone da Medicina, foi o livro didático padrão utilizado nas principais universidades do mundo por mais de 600 anos. Ibn Sina estava séculos à frente de seu tempo. Ele descobriu que doenças terríveis, como a tuberculose, podiam se espalhar pelo solo e pela água, e foi um dos pioneiros da psicologia ao entender que as nossas emoções afetam diretamente a nossa saúde física. Na física, ele chegou a sugerir que a luz era composta por partículas e que sua velocidade deveria ser finita.


AL-BIRUNI: O GÊNIO QUE MEDIU A LUZ

   Se você acha difícil aprender um novo idioma, imagine Al-Biruni. Ele era fluente em turco, persa, sânscrito, hebraico, siríaco e árabe. Ele viajou pelas terras da Índia coletando dados históricos, culturais e científicos que mudaram a forma como o mundo se conhecia.

Suas contribuições para a ciência parecem coisa de viagem no tempo. Ele foi o primeiro cientista a afirmar com toda a certeza que a velocidade da luz é muito mais rápida do que a velocidade do som. Na geografia, defendeu que a Terra girava em torno do seu próprio eixo e calculou latitudes e longitudes com uma precisão assustadora para a época. Ele ainda separou a trigonometria da geometria comum e, olhando para a botânica, percebeu que as flores seguem padrões matemáticos rígidos em suas pétalas (sendo comuns flores com 3, 4, 5, 6 ou 8 pétalas, mas misteriosamente nunca com 7 ou 9).


LEGADO: AS SEMENTES DA REVOLUÇÃO CIENTÍFICA

   Quando estudamos história da ciência, nomes europeus como Galileu Galilei e Isaac Newton costumam levar todo o crédito. O próprio Isaac Newton dizia que, se ele conseguiu enxergar mais longe, foi porque se apoiou no "ombro de gigantes". O que muita gente esquece é de onde veio a base desses gigantes. O conhecimento antigo foi mantido vivo, testado e transformado em um incêndio de inovação graças aos cientistas árabes.

Eles foram a ponte cultural que sustentou a evolução humana enquanto a Europa enfrentava guerras e crises. Sem a álgebra de Al-Khwarizmi ou a medicina avançada de Ibn Sina, a Revolução Científica que mudou o mundo séculos depois talvez nunca tivesse acontecido. A ciência não tem um único dono ou país de origem: ela é uma construção coletiva de toda a humanidade.






📝🔍 DESENVOLVA


01-Por que o texto afirma que a ideia de que a Idade Média foi uma "Idade das Trevas" de estagnação total está errada, tomando como exemplo o mundo árabe?


02-O que foi a Casa da Sabedoria em Bagdá e quais eram as suas principais funções científicas e tecnológicas?


03-Explique a origem histórica das palavras modernas "Álgebra" e "Algoritmo" com base nas descobertas e na vida do matemático Al-Khwarizmi.


04- Quais foram as principais descobertas feitas pelo médico Ibn Sina (Avicena) no campo da saúde que mostram que ele estava muito à frente do seu tempo?






Fontes confiáveis e científicas: 

FARNDON, John. A história da ciência: por seus grandes nomes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2015.


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